ESCRITO POR CLOVIS
TEXTO
PROCLAMADO NA MISSA DE MÊS DE TIÃO
CARREIRO POR CLOVIS BITTENCOURT.
No
princípio Deus criou os céus e a Terra (...) e disse: - Faça-se à luz (...).
surgiu à tarde e a manhã, foi o primeiro dia.
E
construíu o mundo durante a semana.
Deus
a seguir disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (...) e ele
dominará a Terra (...). Surgiu à tarde e em seguida a manhã: foi o sexto dia.
E
descansou ao sétimo dia.
(Gênesis
1,1-5/26-31)
Em
finais do século XIX, Deus criou a viola. Era um instrumento primitivo
com cravelhas de madeira, doze cordas e, provavelmente trazida para o
Brasil pelos portugueses.
A
seis décadas atrás, no dia de Santa Luzia , Deus criou
o violeiro. Era de uma família humilde, do
Norte de Minas e, como tantos brasileiros, chamava-se Zé.
Nos
anos cinqüenta, o violeiro criou o pagode, criou a
alegria. E cantou o amor, criou paixões.
Criou
emoções.
Enquanto
isso, o homem, criação de Deus, criava tristezas na Terra,
com desigualdades e injustiças. E Deus ficava triste.
Em
15 de outubro de 1993, Santa Luzia
reuniu alguns sertanejos, Florêncio, Vierinha, Bambico,
Raul Torres, Marrueiro, Zé Carreiro e Zé Fortuna e pediu para fazerem um
catira no céu, para alegrar a Deus.
Alguém
lembrou que faltava o violeiro. E Deus mandou buscar o Zé.
E
Deus ficou feliz. E nós ficamos tristes.
Quem
passasse pelas estrelas, nessa hora, poderia ouvir o riscar de uma viola,
o bate pé no tablado e uma voz grave, entre anjos e querubins:
“-Quem
tem mulher que namora, quem tem burro empacador,
Quem
tem a roça no mato, me chama que jeito eu dou...”
E
varou a madrugada.
A
benção, TIÃO CARREIRO
São
Paulo, 15 de outubro de 1994.